Por Frei Raniero Cantalamessa, OFMcap

No dia seguinte à festa de Pentecostes de 1975, por ocasião do encerramento do Congresso Mundial da Renovação Carismática na Igreja Católica. O Sumo Pontífice Paulo VI se volta aos dez mil participantes reunidos na basílica de São Pedro e faz um discurso que se apresenta até hoje, para a Renovação, como o documento mais importante para saber o que a hierarquia da Igreja pensa e espera dela. Depois de ler o discurso oficial, o Papa acrescenta, de modo improvisado, estas palavras: “No hino que lemos esta manhã, no breviário, que remete a Santo Ambrósio, no século IV, se encontra esta frase difícil de se traduzir, mesmo que seja muito simples: Laeti, que significa alegresbibamus, que significa bebamossobriam, que significa bem definida e moderadamente; profusionem Spiritus, que é a abundância do Espírito. “Laeti bibamus sobriam profusionem Spiritus”. Poderia ser o lema impresso sobre o vosso movimento: Um programa e um reconhecimento do Movimento em si”.

A Igreja traçou-nos, portanto, pela boca de seu pastor supremo, um programa. Não podemos deixar com que nenhuma palavra disso se perca; devemos, antes, descobrir todo o seu conteúdo, sobretudo o conteúdo daquela palavra latina que fala de uma sóbria profusão do Espírito.

A “Sóbria Embriaguez” nos Padres

O Papa indicou-nos de onde ele mesmo buscara aquele programa: de Santo Ambrósio, isto é dos Padres, daquela mina inexaurível que é a Tradição viva da Igreja. Desejo agora conduzir-vos comigo nesta mesma mina da Tradição para descobrir que coisa pensavam os Padres da Igreja quando falavam de “sóbria embriaguez do Espírito”. Antes de tudo, é este – nos perguntamos – o pensamento de um Bispo isolado ou é mais que isso?

Enquanto buscava uma resposta para esta pergunta, fiz uma descoberta estupenda. Houve um momento na vida da Igreja – por volta do primeiro século – no qual o cristianismo inteiro fez a experiência de uma embriaguez espiritual, uma intoxicação de Espírito Santo (mas veremos que tipo de intoxicação estamos falando). Algumas vozes deste coro nos ajudarão a compreender que coisa o Papa desejou sugerir-nos com aquelas palavras.

Jerusalém, ano 358: O Bispo do lugar, Cirilo, comentando aos catecúmenos o acontecimento de Pentecostes e as palavras de Pedro: Estes homens não estão embriagados como vós pensais” (At 2, 15), diz:

“Não estão embriagados no sentido que vós entendeis. Estão ébrios, sim, mas daquela sóbria embriagues – nefálios méthe – que fez morrer os pecados e vivifica o coração, e é o oposto da embriaguez material. Esta – a embriaguez material – faz esquecer aquilo que já se sabia; aquela, por sua vez, doa o conhecimento daquilo que antes era desconhecido. São ébrios porque beberam o vinho daquela vida espiritual que afirma: Eu sou a videira, vós os ramos (Jo 15, 5)” (São Cirilo de Jerusalém, Catequese XVII, 19).

Esta embriaguez vinda do Espírito Santo é, portanto, um estado no qual o homem é purificado dos pecados, tem o coração despertado de fervor e a mente elevada a um conhecimento especial de Deus: um conhecimento não discursivo, mas intuitivo, quase experimental, acompanhado de doçura interior.

De Jerusalém, vamos juntos para Milão. Escutamos nas palavras do Papa o verso de um hino de Santo Ambrósio. Não é a única vez que o bispo de Milão fala da sóbria embriaguez do Espírito. Pregando aos neófitos, ele disse:

“Toda vez que bebes, recebes a remissão dos pecados e és inebriado do Espírito. Neste sentido, o Apóstolo diz: ‘Não vos embriaguez de vinho, mas enchei-vos do Espírito’ (Ef 5, 18). Aquele que se embriaga de vinho cambaleia; aquele, porém, que se inebria do Espírito Santo é enraizado em Cristo. Verdadeiramente excelente é esta embriaguez que produz a sobriedade da alma!” (De Sacramentis, V, 3, 17; SC 25, p. 92).

Mesmo entre os cristãos de Milão portanto se vê a mesma experiência: o Espírito Santo, dado nos sacramentos, especialmente na Eucaristia, dá a alma uma de embriaguez que não tem nada de decomposto e de exterior, e todavia arrasta para fora do seu ritmo natural, fora da sua pobreza e impotência natural, em um “estado de graça” no qual não há mais lugar para dúvidas, arrependimentos, egoísmos, mas somente para a alegria e a gratidão. A alma está enraizada em Cristo.

Agora uma outra voz da tradição, a de Santo Agostinho:

“O Espirito Santo – diz aos neófitos – veio para habitar em vós (é o dia da Páscoa e eles acabaram de receber o Batismo!); não permitais que ele fique distante; não o exclua mais dos vossos corações. É um bom hóspede: encontrou-te vazio e te encheu; encontrou-te faminto e te saciou; encontrou-te sedento e te inebriou. Seja Ele a inebriar-te verdadeiramente. Diz o Apóstolo: ‘Não vos embriagueis de vinho que traz a luxúria’. Depois, para nos inculcar a respeito de que coisa devemos nos embriagar, continua: ‘mas sejam repletos do Espírito Santo, recitando entre vós hinos, salmos, cânticos espirituais, cantando e celebrando ao Senhor com todo o vosso coração’ (cf. Ef 5, 18s). Quem se alegra no Senhor e canta a Ele com grande exultação não se assemelha talvez àquele que é ébrio? Compraze-me esta ebriedade… O Espírito de Deus é bebida e luz” (Sermo 225; PL 38, 1098).

Santo Agostinho Agostinho se perguntou por que as Escrituras recorreram a uma imagem tão ousada como a da embriaguez, e responde:

“É porque apenas o estado do homem que bebeu a ponto de perder o uso completo da razão pode nos dar uma ideia – embora negativa – do que acontece na mente humana ao receber a inefável alegria do Espírito Santo, que vem divinamente, inundando da abundância da casa de Deus, isto é, antegozando algo da doçura da Jerusalém celestial” (Cf. Enarr. In Ps. 35, 14).

Na embriaguez espiritual, o homem sai de si mesmo, mas não para viver abaixo da sua própria razão (como na embriaguez do vinho ou da droga), mas para viver por sobre ela, na luz de Deus.

Estes pequenos “tira-gostos” no terreno da Tradição são suficientes para dar-nos uma ideia de como se concebia naquele tempo a vida cristã e não – se parece bem – a vida de alguns privilegiados, místicos, mas de todos os batizados (se trata, geralmente, de coisas ditas aos catecúmenos e aos neófitos!). Estamos claramente frente a um Cristianismo carismático que crê firmemente, com todo o Novo Testamento, que a graça é o início da glória e que torna possível, portanto, de agora em diante uma certa experiência direta de Deus.

Os pastores da Igreja, longe de terem medo deste entusiasmo e freia-lo, alimentam-no, são os suscitadores e guias iluminados. Os historiadores comumente chamam aquele século de “o século de ouro” da história da Igreja, mas não parece que se perguntem de onde vinha aquele extraordinário florescimento de gênios na Igreja, aquele esplendor de doutrina nos escritos dos Padres, aquela insuperável capacidade de ler “espiritualmente” a Escritura trazendo alimento substancioso de vida para todo o povo de Deus. Tudo aquilo vinha do fato de que o Espírito Santo “circulava” livremente na Igreja, como o mel nos favos, para usar uma imagem querida àquele tempo; ainda não havia sido traçado caminhos obrigatórios (os canais da graça!) com uma rígida institucionalização, com leis e cânones humanos. A confiança da Igreja não estava tanto na eficiência da sua organização – no ser uma sociedade perfeita – mas repousava na presença, em meio a ela, do Espírito Santo, isto é, no ser uma sociedade espiritual, um corpo animado do Espírito Santo, ainda que estruturada visivelmente em torno aos bispos.

Neste pleno e definitivo reconhecimento da divindade do Espírito Santo, que se verificou neste período, a Igreja procura – quase como prêmio – a experiência de um novo Pentecostes. Este era um tempo no qual se podia ouvir um Bispo (não apenas um simples teólogo!) exclamar ao seu povo:

“Por quanto tempo ainda teremos o grande tesouro escondido debaixo da cama? É hora de colocar a lâmpada (o Espírito Santo!) sobre o candelabro, para que ilumine a todas as igrejas, em todas as almas, em todo o mundo” (Gregório Nazianceno, Oratio12, 6; PG 35, 856).

 Não passou um par de anos destas palavras para que, no Concílio Ecumênico de Constantinopla de 381, a profissão de fé na plena divindade do Espírito Santo entrasse finalmente no “Credo”: a grande lâmpada estava colocada sobre o candelabro mais alto da Igreja.

As misérias humanas não faltavam também naquele tempo: eram tantas e igualmente graves: Havia heresias, contendas entre igreja e igreja, pequenos cismas, mas não estavam em grau de parar a obra do Espírito, nem de fazer com que a Igreja se curvasse sobre ela mesma. De todas estas coisas, a Igreja – para dizer com São Paulo – vencia, graças àquele que a confortava, que lhe dava força e consolação, e este era o Espírito Santo. No centro da Igreja havia como que um vulcão aceso que com as suas chamas purificava e varria para fora tudo, e não permitia que, nas suas encostas, se aninhassem ao longo vegetações daninhas criadas pelos pecados dos homens.

Prospectando a ideia de uma sóbria embriaguez, então, é como se o chefe supremo da Igreja nos tivesse pedido – e conosco a todos os cristãos – de fazer reviver no Cristianismo de hoje uma experiência de entusiasmo espiritual similar àquela que fez do século IV, “o século de ouro” da sua história.