Kyrios é uma iniciativa que oferece um caminho de discipulado inspirado no Rito de Iniciação Cristã de Adultos – promulgado pelo Papa Paulo VI em 1972 – com uma ênfase na missionariedade inerente a todo cristão, tanto para ser fermento na Comunidade Eclesial – formação ministerial e pastoral – quanto para ser edificador de uma nova cultura – Humanidades Clássicas, Filosofia e Teologia – capaz de fecundar a civilização do amor.

Por séculos o único modo de um jovem se tornar um discípulo e missionário na Igreja Católica era tornando-se um religioso ou religiosa na vida consagrada. O Itinerário oferecido pelo Kyrios deseja nutrir o necessário reconhecimento de que todo batizado é um Rei, um Sacerdote e um Profeta chamado pelo Senhor ao anúncio do Evangelho desde o seu estado de vida.

O cristão é um edificador de Comunidades. O Senhor nos interpela a ir em socorro de SEU POVO – nossos irmãos. De fato, a mesma palavra dirigida a Caim, ressoa aos nossos ouvidos: “Onde está o teu irmão?” (Cf. Gn 4, 9). Ecoa em nossos corações as palavras do Senhor a Moisés:

“Eu vi, eu vi a aflição de meu povo que está no Egito, e ouvi os seus clamores por causa de seus opressores. Sim, eu conheço seus sofrimentos. E desci para livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir do Egito para uma terra fértil e espaçosa, uma terra que mana leite e mel, lá onde habitam os cananeus, os hiteus, os amorreus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus. Agora, eis que os clamores dos israelitas chegaram até mim, e vi a opressão que lhes fazem os egípcios. Vai, eu te envio ao faraó para tirar do Egito os israelitas, meu povo” (Ex 3, 7 – 10).

O Papa Bento XVI assim escreveu, no início da Encíclica Deus Caritas Est:

“Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo.” 

O Encontro com Jesus Cristo não é algo que possa ser produzido por uma metodologia, por um ambiente externo ou qualquer coisa do gênero. Kyrios deseja ser uma ajuda para oferecer os melhores meios que favoreçam a abertura do nosso coração para este encontro propondo um caminho de orientação catecumenal.

O Rito de Iniciação Cristã de Adultos

Para melhor entender o Kyrios é necessário entender a estrutura e um pouco do conteúdo do Catecumenato. Assim diz o RICA (Rito de Iniciação Cristã de Adultos):

“A iniciação dos catecúmenos faz-se à maneira de uma caminhada progressiva […] Nesta caminhada, além de um tempo de procura e amadurecimento, há vários ‘degraus’ ou ‘passos’, pelos quais o catecúmeno, ao caminhar, como que passa uma porta ou sobe um degrau:

  1. O primeiro é quando alguém, que chegou à conversão inicial, quer tornar-se cristão, e é recebido pela Igreja como catecúmeno;
  2. O segundo é quando, já adiantado na fé e quase no fim do catecumenato, é admitido a uma preparação mais intensa para os sacramentos;
  3. O terceiro é quando, completada a preparação espiritual, recebe os sacramentos pelos quais o cristão é iniciado.”

Esses três degraus, passos ou portas que foram mencionados pelo RICA são assinalados por três ritos litúrgicos: o primeiro é assinalado pelo rito da instituição dos catecúmenos; o segundo pelo rito da eleição; e o terceiro pela celebração dos sacramentos. Cada um desses ritos é antecedido e seguido por “tempos” de preparação ou de amadurecimento. O RICA explica:

“a) o primeiro tempo, que da parte do catecúmeno exige uma procura, é destinado à evangelização por parte da Igreja e ao ‘pré-catecumenato’, e conclui-se pela entrada na ‘ordem dos catecúmenos’;

b)  o segundo tempo, que começa com esta entrada na ordem dos catecúmenos, e pode durar vários anos, é consagrado à catequese e aos ritos a ela anexos, e termina no dia da eleição;

c) o terceiro tempo, mais breve, que habitualmente coincide com a preparação para as solenidades pascais e para os sacramentos, é destinado à purificação e à iluminação;

d) o último tempo, que se prolonga por todo o tempo pascal, é destinado à “Mistagogia”, isto é, por um lado ao recolhimento da experiência e dos frutos da vida cristã e, por outro, à entrada no convívio da comunidade dos fiéis, estabelecendo com ela relações profundas. ” 

Portanto, temos: 

  1. Tempo de Pré-catecumenato;
    • Rito de Iniciação dos Catecúmenos; 
  2. Tempo de Catecumenato;
    • Rito de Eleição;
  3. Tempo de Purificação e Iluminação;
    • Rito de recepção dos sacramentos;
  4. Tempo de Mistagogia.

O pré-catecumenato é bastante semelhante, ao menos no conteúdo, ao que se conhece por Seminário de Vida no Espírito Santo nas expressões carismáticas. O RICA, a respeito do pré-catecumenato, diz:

“O pré-catecumenato tem uma grande importância e habitualmente não se deve omitir. Nele se faz a primeira evangelização em que é anunciado com firmeza e constância o Deus vivo e Aquele que Ele enviou para a salvação de todos, Jesus Cristo, de modo que os nãos cristãos, movidos pelo Espírito Santo que lhes abre o coração, abracem a fé e se convertam ao Senhor, em adesão sincera àquele que, sendo o caminho, a verdade e a vida, é capaz de satisfazer todos os seus anseios espirituais e até de infinitamente os superar.

Da evangelização, levada a cabo com o auxílio de Deus, nascem a fé e a conversão inicial, pelas quais cada um se sente chamado a afastar-se do pecado e inclinado a abraçar o mistério da divina caridade. Todo o tempo do pré-catecumenato se destina a esta evangelização, a fim de que amadureça com sinceridade o desejo de seguir a Cristo e de pedir o Batismo.”

O RICA pede também que as Conferências Episcopais estabeleçam uma primeira forma de acolher os “simpatizantes” – aqueles que estão no pré-catecumenato. Este acolhimento deve ser feito sem qualquer rito, num ambiente de amizade e de convívio.

Quando o RICA fala de “rito de admissão dos catecúmenos”, coloca algumas condições, como fruto de um pré-catecumenato bem vivido. Assim escreve:

“Para que os candidatos deem esse passo, é necessário que neles tenham sido lançados os primeiros fundamentos da vida espiritual e da doutrina cristã: um princípio de fé concebida durante o tempo do ‘pré-catecumenato’, um começo de conversão e uma primeira vontade de mudar de vida e de estabelecer relações pessoais com Deus em Cristo e, consequentemente, um primeiro sentido de penitência, a prática incipiente de invocar a Deus e de oração e ainda uma primeira prática de vida da comunidade e do espírito cristão. Compete aos pastores, auxiliados pelos ‘introdutores’, catequistas e diáconos, julgar dos indícios externos destas disposições […] Depois da celebração do rito, registrem-se, em devido tempo, no livro próprio, os nomes dos catecúmenos, com a indicação do ministro e ‘introdutores’, do dia e do lugar em que foi feita a sua admissão.”

O Catecumenato – segundo o RICA – é um tempo prolongado, durante o qual os candidatos recebem formação cristã e se submetem a uma adequada disciplina. Com estes auxílios e as disposições de espírito que manifestam, atingem a maturidade.

O RICA pede que a instrução na fé, feita no catecumenato, seja adaptada ao ano litúrgico e baseada em celebrações da palavra, levando os irmãos a uma conveniente instrução sobre os dogmas e preceitos, e a um conhecimento íntimo dos mistérios da salvação que desejam aplicar à sua vida.

Para chegar ao rito da eleição, o RICA pede que aqueles que passaram pelo catecumenato apresentem alguns frutos e sinais na própria vida. Assim diz o RICA:

“Antes de celebrar a ‘eleição’, requere-se, da parte dos catecúmenos, a conversão da mente e dos costumes, um conhecimento suficiente da doutrina cristã e o sentido da fé e da caridade; requere-se, além disso, o exame sobre a sua idoneidade. Depois, na própria celebração do rito, os catecúmenos manifestam a sua vontade, e o Bispo ou o seu delegado dá o seu parecer diante da comunidade. Assim fica patente que a ‘eleição’, que se reveste de tão grande solenidade, é o momento decisivo de todo o catecumenato.”

Sobre o rito da eleição, o RICA descreve:

“Chama-se ‘eleição’ porque a admissão feita pela Igreja se funda na eleição de Deus, em nome de quem ela atua; chama-se ‘inscrição do nome’, porque os candidatos escrevem o seu nome no livro dos ‘eleitos’, como penhor de fidelidade.”

Em seguida vem o tempo de purificação e iluminação que, na Igreja Primitiva, coincidia com a Quaresma. Assim descreve o RICA:

“Durante este tempo, os catecúmenos são objetos de uma preparação interior mais intensa. Esta tem mais em vista o recolhimento espiritual do que a catequese, e destina-se à purificação do coração e da mente, através do exame de consciência e da penitência, e à sua iluminação por meio do conhecimento mais aprofundado de Cristo Salvador. Tudo isto se faz por meio de vários ritos, sobretudo pelos ‘escrutínios’ e pelas ‘tradições’.

  1. Os escrutínios, que devem ser celebrados solenemente ao domingo, têm em vista o duplo fim acima referido, a saber: pôr a descoberto o que no coração dos eleitos possa haver de fraqueza, enfermidade ou malícia, para que seja curado, e o que há de bom, válido e santo, a fim de o fortalecer. Os escrutínios destinam-se a libertar do pecado e do demônio e ao fortalecimento em Cristo que é o caminho, a verdade e a vida dos eleitos.
  2. As tradições, pelas quais a Igreja entrega aos eleitos antiquíssimos documentos da fé e da oração – o Símbolo e a Oração dominical – têm como finalidade a sua iluminação. No Símbolo, em que se proclamam as maravilhas de Deus para a salvação dos homens, os olhos dos eleitos são inundados de fé e de alegria. Na oração dominical, reconhecem em toda a sua profundidade o novo espírito de filhos, pelo qual chamam a Deus seu Pai, sobretudo na assembleia eucarística.” 

Depois disto vem a recepção dos Sacramentos da Iniciação, durante a Vigília Pascal, e o tempo da Mistagogia, marcado, segundo o RICA:

“pela meditação do evangelho, pela participação na Eucaristia e pelo exercício da caridade.”

O RICA diz que:

“Os neófitos foram renovados no seu espírito, saborearam as íntimas delícias da palavra de Deus, entraram em comunhão com o Espírito Santo e descobriram como o Senhor é bom. Desta experiência, própria do homem cristão e aumentada na prática da vida, tiram novo sentido da fé, da Igreja e do mundo.”

KYRIOS

VISÃO GLOBAL DO ITINERÁRIO FORMATIVO

  • Tempo da Semeadura: Baseado no pré-catecumenato do RICA, tendo por orientação as seguintes obras:
    • “Questões da Vida”, de Nicky Gumbel (Curso Alpha);
    • “As Três Filosofias”, de Peter Kreeft;
    • “O Elogio da Sede”, do Cardeal José Tolentino de Mendonça; 
    • “Enchei-vos”, de Emmir Nogueira e Meyr Andrade;  
    • ”A Vida em Cristo”, do Cardeal Raniero Cantalamessa;
  • Tempo da Edificação: Instrução na Fé, com ênfase nas Escrituras, nos Padres da Igreja e no Catecismo da Igreja Católica, buscando inspiração no tempo de catecumenato enquanto a sua forma (Liturgia da Palavra, Orações específicas, ‘responsáveis’, etc.). Algumas obras importantes:
    • “O Verbo se faz Carne Reflexão – Anos A, B e C”, Cardeal Raniero Cantalamessa;
    • “Jornada pelas Escrituras”, Scott Hahn;
    • “Estudo Bíblico”, Pe. José Eduardo de Oliveira e Silva;
    • “Introdução ao Cristianismo”, Papa Emérito Bento XVI;
    • “Curso do Catecismo da Igreja Católica”, Comunidade Frater Kerygma;
    • “Da Catequese aos Rudes”, Santo Agostinho;
    • “A Satisfação de todo o desejo”, Dr. Ralph Martin
    • “Maria, um Espelho para a Igreja”, Cardeal Raniero Cantalamessa;
  • Tempo da Purificação & Iluminação: Período de Cura Interior, libertação e formação ascética e mística, baseado na “Purificação e Iluminação” proposta no RICA, com os mesmos ritos litúrgicos.
    • “Os Exercícios Espirituais”, Santo Inácio de Loyola;
    • “Personalidades Restauradas”, Valnice Milhomens;
    • “O Discípulo Amado”, Ronaldo José de Souza;
    • “O Regresso do filho pródigo”, Henri Nouwen; 
  • Tempo de Mistagogia: Período focado na experiência comunitária da fé e na ação caritativa, baseado no tempo de Mistagogia proposto pelo RICA.
    • “Catequeses Mistagógicas de São Cirilo de Jerusalém”;

O Papa Paulo VI, na exortação apostólica Evangelii Nuntiandi, declara, no n.5:

“… A apresentação da mensagem evangélica não é para a Igreja uma contribuição facultativa: é um dever que se lhe incumbe, por mandato do Senhor Jesus, a fim de que os homens possam acreditar e ser salvos. Sim, esta mensagem é necessária; ela é única e não poderia ser substituída. Assim, ela não admite indiferença nem sincretismo, nem acomodação, pois é a salvação dos homens que está me causa […] Enfim, ela é a Verdade. Por isso, bem merece que o apóstolo lhe consagre todo o seu tempo, todas as suas energias e lhe sacrifique, se for necessário, a sua própria vida.”

OS TRÊS PILARES DA ATIVIDADE DA IGREJA: KERYGMA/ MISTAGOGIA / DIAKONIA

No Jubileu da Misericórdia de 2016, o Papa Francisco desejou que os dez anos da Encíclica Deus Caritas Est, do Papa Emérito Bento XVI, fossem não somente comemorados, mas que a Igreja voltasse seu olhar novamente para os ensinamentos contidos nesta Carta Encíclica. O Pontifício Conselho Cor Unum, na pessoa de seu Secretário, Mons. Giovani Pietro Dal Toso, organizou, uma Conferência com tema: “O amor não terá fim”. 

Assim escreveu Bento XVI, no n.25:

“A natureza íntima da Igreja exprime-se num tríplice dever: anúncio da Palavra de Deus (kerygma-martyria), celebração dos Sacramentos (leiturgia), serviço da caridade (diakonia). São deveres que se reclamam mutuamente, não podendo um ser separado dos outros. Para a Igreja, a caridade não é uma espécie de actividade de assistência social que se poderia mesmo deixar a outros, mas pertence à sua natureza, é expressão irrenunciável da sua própria essência. ”

KERYGMA – o anúncio da Palavra de Deus – MISTAGOGIA – a dimensão mistérica e sacramental, sobretudo no âmbito celebrativo [litúrgico] – e DIAKONIA – o ministério da caridade – são dimensões coessenciais da atividade da Igreja. Elas exprimem a natureza íntima da Igreja. 

  • De acordo com as afirmações de São João Paulo II e do Papa Emérito Bento XVI, a essência da Igreja é bem expressa na “bidimensionalidade” da relação “Instituição & Carisma”. Não é que algumas coisas na Igreja sejam “carismáticas” e outras “institucionais”. Existe uma relação de interpenetração, de perícorese entre ambas as dimensões.
  • Enquanto natureza, por outro lado, a Encíclica Deus Caritas Est afirma que a natureza da Igreja é expressa na tridimensionalidade da relação “Kerygma, Mistagogia e Diaconia”.

Evidencia-se, cada vez mais, que o problema da ação evangelizadora da Igreja está na fragmentação, na secção entre KERYGMA, MISTAGOGIA e DIAKONIA. 

O número 289 do Documento de Aparecida afirma:

“Sentimos a urgência de desenvolver em nossas comunidades um processo de iniciação cristã que comece pelo Kerygma e que, guiado pela Palavra de Deus, conduza a um encontro pessoal, cada vez maior, com Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito homem, experimentado como plenitude da humanidade e que leve à conversão, ao seguimento em uma comunidade eclesial e a um amadurecimento de fé na prática dos sacramentos, do serviço e da missão.”

No número 278, o mesmo documento afirma:

“O Kerygma não é somente uma etapa, mas o fio condutor de um processo que culmina na maturidade do discípulo de Jesus Cristo. Sem o Kerygma, os demais aspectos desse processo estão condenados à esterilidade, sem corações verdadeiramente convertidos ao Senhor. Só a partir do Kerygma acontece a probabilidade de uma iniciação cristã verdadeira. Por isso, a Igreja precisa tê-lo presente em todas as suas ações.”

No dia 02 de dezembro de 2005, na primeira semana do advento, o Frei Raniero Cantalamessa pregou ante o Papa Bento XVI sobre o tema A Fé em Cristo Hoje e no Início da Igreja. Ele afirma:

“A fé, como tal, floresce somente na presença do Kerygma, do anúncio. «Como poderão crer –escreve o Apóstolo falando da fé em Cristo– sem ter ouvido? Como poderão ouvir sem quem anuncie? » (RM 10, 14). Literalmente: «sem alguém que proclame o Kerygma» (choris keryssontos). E conclui: Portanto a fé vem da [escuta da] pregação» (Rm 10, 17), onde por «pregação» se entende a mesma coisa, isto é, o «evangelho» ou o Kerygma.”

Falando sobre o conteúdo do Kerygma, Frei Raniero afirma:

“O núcleo mais concreto é a exclamação: «Jesus é o Senhor! », pronunciada e acolhida no estupor de uma fé «statu nascenti», isto é, no ato mesmo de nascer. O mistério desta palavra é tal que ela não pode ser pronunciada «senão sob a ação do Espírito Santo» (1 Co 12, 3). Esta exclamação por si só faz entrar na salvação a quem crê em sua ressurreição: «Porque se confessas com tua boca que Jesus é o Senhor e crês em teu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos serás salvo» (RM 10, 9) […] Portanto aquilo que na pregação de Jesus era a exclamação: «Chegou o Reino de Deus! », na pregação dos apóstolos é a exclamação: «Jesus é o Senhor! ». E não são, de modo algum, afirmações que se contrapõem; muito pelo contrário, são continuidade perfeita entre o Jesus que prega e o Cristo pregado, porque dizer: «Jesus é o Senhor! » é como dizer que em Jesus, crucificado e ressuscitado, se realizou por fim o reino e a soberania de Deus sobre o mundo.”

Por meio da experiência denominada Batismo no Espírito Santo, o fiel encontra um caminho esplêndido para ter uma experiência pessoal com Jesus Cristo. A pregação do Kerygma sob o “poder do Espírito Santo” – expressão utilizada pelo Apóstolo São Paulo para denominar as manifestações carismáticas – promove esta experiência que leva o fiel a uma sede profunda das fontes de vida espiritual que são os sacramentos, a leitura da Palavra, a Oração, etc.

Neste sentido, o Batismo no Espírito Santo abre o coração do fiel para a Didaké, o que lhe permitirá uma participação mais vívida e eficaz dos divinos mistérios, sobretudo a Eucaristia. 

Características Basilares do Kyrios:

  1. Jesus Cristo é a chave da Boa Nova

O prólogo do Evangelho de São João nos ensina:

“No princípio era o LOGOS, e o LOGOS estava junto de Deus e o LOGOS era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus (Jo 1, 1-2).”

Muito se poderia dizer a respeito da palavra LOGOS. Eu vou me ater tão somente ao aspecto que considero ser mais importante. Quando se estuda Filosofia do Conhecimento, discute-se se um objeto pode ser conhecido em si mesmo ou não. Alguns afirmam que o conhecimento das coisas se dá na relação entre o “conhecedor” e o “conhecido”. Neste sentido, existe no objeto um “LOGOS”, ou seja, uma “lógica”, digamos assim. É o objeto enquanto “apreensível” pelo intelecto, “captável” pelo intelecto. Aristóteles afirma que nada há no intelecto que primeiro não passe pelos nossos sentidos. Uma vez que os nossos sentidos captam o objeto enquanto “conhecível”, nós formamos um “conceito” a respeito do objeto.

Quando São João diz que Jesus é o LOGOS, irmãos, Ele nos está nos dizendo que tudo o que pode ser conhecido a respeito de Deus está no LOGOS e É o LOGOS. 

Por isso, a primeira noção que deve perpassar cada um dos mais variados temas de todo o “Caminho de Vida em Cristo” é que a verdadeira perspectiva a respeito de quem é Deus e de Sua revelação só pode ser comunicada desde Cristo. Portanto: 

  • Se o tema é o “Amor de Deus”, a primeira noção sobre o tema a ser transmitida é: O que Jesus Cristo nos revela a respeito de quem é Deus? O que Jesus Cristo nos revela a respeito de Seu amor?
  • Se o tema é “Pecado”, a primeira noção sobre o tema a ser transmitida é: Jesus Cristo e o mistério da iniquidade. O que é o pecado e o mal para Jesus Cristo? O que Jesus Cristo ensinou a respeito do pecado, sua origem, suas consequências?

Isto com cada um dos mais variados temas que são trabalhados em todo o discipulado.

  1. A Cura da Personalidade e das Relações

Uma famosa pregadora evangélica chamada Valnice Milhomens, em seu livro “Personalidades Restauradas”, trata deste tema de modo muito inspirado. Há muito tempo atrás ela trabalhou o conteúdo do seu livro em um programa de televisão que ela tinha – não sei se continua tendo – onde, de modo magistral, Valnice ensinava que quando o homem conhece Jesus Cristo e passa a ser “um com Ele” o seu espírito é recriado; contudo, seguimos experimentando as inclinações de nossa natureza concupiscente em nossos corpos – e quando eu falo ‘corpo’ você precisa ter a noção da psicologia atual, que contempla a dimensão psicossomática. Há uma distinção importantíssima que precisa ser bem compreendida, irmãos:

– São Paulo, quando fala de obras da “carne”, não utiliza a palavra “SOMA” – que significa “corpo”, mas a palavra “SARKS” que significa “carne”, mas que seria melhor traduzida ao português pelo termo “carniça”, “carne em estado de putrefação”. O interessante aqui é que as “obras da carne” não são necessariamente os instintos mais animalescos que nós temos, mas sobretudo da “corpo enquanto unido a uma alma”. Esta divisão “corpo e alma” é fruto da filosofia grega, irmãos, porque na tradição bíblica… Esta separação é inexistente.

Portanto, há uma real necessidade de trabalhar a cura da personalidade. E um dos principais atributos – digamos assim – da personalidade é a sociabilidade. Ser pessoa é ser social, é relacionar-se. A este respeito, Valnice diz:

“O que é personalidade? A expressão daquilo que nós somos. Deus projetou o homem perfeito, que refletisse a sua imagem e a sua semelhança. Mas o pecado entrou no caminho – ah! Este triste pecado, não é? –  que entrou no caminho e estragou tudo! Ele não apenas nos separou de Deus, mas provocou um dano terrível em nossa alma, em nossa personalidade. Bem… Quando estudávamos as alianças, dizíamos que Deus estabelece relacionamentos de compromisso conosco; e esses relacionamentos foram traduzidos em alianças, em pactos, e nesta palavra ‘relacionamento’ nós vamos encontrar os nossos principais problemas. Nós somos seres sociais. Deus disse ‘não é bom que o homem esteja só’, então… Deus não criou o homem para estar sozinho. O homem precisa se relacionar… Nós nos relacionamos… Os pais se relacionam com os filhos, os filhos se relacionam com os pais, o marido com a esposa, e vice versa; amigos se relacionam, patrões e empregados se relacionam, nós nos relacionamos na sociedade nos mais diversos níveis e não podemos viver sem o relacionamento. Óh! Mas são estes relacionamentos os piores problemas da humanidade! Nós temos guerras entre nações porque não conseguem se relacionar. Nós temos lares divididos, destruídos porque não conseguem se relacionar; nós temos pais e filhos distanciados uns dos outros porque não conseguem se relacionar; nós temos toda uma situação no trabalho a nível de patrões e empregados, a nível de colegas, porque não conseguem se relacionar; nós temos problemas entre vizinhos, o nosso vizinho mais próximo, quer na mesa de trabalho, quer na escola, quer no lugar onde moramos, ou até na Igreja onde nós adoramos a Deus, na sociedade, aqueles lugares onde nós fazemos as nossas compras, enfim. Como nos relacionarmos com os outros? Sempre nós estamos tendo problemas. Nossas maiores dores de cabeça são resultado de relacionamentos desestruturados.” 

  1. Uma profunda vida comunitária

Desde o início do discipulado a pessoa é inserida num pequeno “grupo de perseverança” ou “célula” onde ele contará com um introdutor que, de certa forma, vai “apadrinha-lo” em todo o itinerário. Estas “células” terão seus momentos de comunhão, de partilha, de intercessão, de convivência e de missão ao longo de todo o itinerário. 

A construção de amizades sólidas em Deus, do amor ao outro pelo que ele é e não pelo que ele tem ou oferece, da partilha de vidas, da participação de um na vida do outro precisa ser marcante em todo o processo do discipulado.

  1. A atividade caritativa

O Papa Emérito Bento XVI,  em sua Encíclica Deus Caritas Est, afirma:

“Só a minha disponibilidade para ir ao encontro do próximo e demonstrar-lhe amor é que me torna sensível também diante de Deus. Só o serviço ao próximo é que abre os meus olhos para aquilo que Deus faz por mim e para o modo como Ele me ama.”

Jamais ofereceríamos um itinerário espiritual completo se ele não viesse a contemplar o anúncio da Palavra, a Liturgia e o serviço da caridade. Portanto, desde o Tempo de Semeadura até o Tempo de Mistagogia, atividades caritativas precisam acontecer por meio das células.

  1. Princípios da Espiritualidade: Via Purgativa, Iluminativa e Unitiva

Em cada um dos Tempos do Kyrios, em cada um dos temas oferecidos, trabalha-se para que os temas propostos, os exercícios espirituais, as diversas orações e atividades possuam suas ênfases, ora purgativas, ora iluminativas, ora unitivas. Considera-se também que as vias sejam estados onde uma alma se encontra. 

Práticas como o exame de consciência, o diário espiritual, a vida sacramental, o terço, a lectio divina e assim por diante devem ser trabalhados ao longo de todo o Caminho.

Formação dos Grupos

O Curso Alpha será a ferramenta utilizada para dar o primeiro passo na formação de Grupos dentro das Comunidades Católicas, iniciando o tempo de Semeadura. Num período de 9 a 12 semanas, portanto, os simpatizantes se reunirão semanalmente para discutir questões importantes sobre a vida, Deus e o mundo ao seu redor de maneira informal e amistosa, como aconselha o RICA.

A Para-Liturgia dos Encontros Kyrios

A partir do tempo de semeadura, os encontros deixam a informalidade própria do Curso Alpha para assumir um formato “para-litúrgico”, cujo fim é oferecer uma experiência mistagógica. Não se trata, portanto, da mera comunicação de um conteúdo; por meio da liturgia, dos ícones, ornamentos, canções, salmodias, leituras bíblicas e testemunhos dos santos, busca-se oferecer uma atmosfera que permita, aos irmãos, experimentar um ambiente de unção enquanto senso da presença de Deus do qual o conteúdo é um dos elementos. 

Vários grupos que terminaram o Alpha podem se juntar para iniciarem juntos a continuidade do tempo de semeadura. 

  1. Do Ambiente:

Preferencialmente, os encontros Kyrios devem ser realizados em oratórios, capelas ou salões que possam ser ornamentados. Podem ou não contar com a presença do Santíssimo Sacramento no Sacrário (de acordo com as disposições de cada comunidade e suas possibilidades). Orne-se este lugar com a Santa Cruz, da qual pendeu a salvação do mundo. Do lado direito da Cruz, uma pilastra onde esteja a imagem (ou quadro, ou ícone) da Santíssima Virgem Maria; do lado esquerdo, a imagem do santo ao qual a comunidade foi dedicada (se houver).

No centro, coloque-se o ambão com a Sagrada Escritura aberta e, ao lado, o Círio Pascal aceso. 

A iluminação deve ser apenas suficiente. Todo o ambiente deve chamar a atenção para o altar.

É necessário que, próximo a este oratório, ou ao fundo, pelo menos, haja um espaço dedicado à confraternização, que pode acontecer antes ou depois do encontro.  

  1. Da Música:

As canções devem ser congregacionais (feitas para o povo cantar), com inspiração nas Sagradas Escrituras e apropriadas para cada momento da para-liturgia. Os instrumentos devem favorecer às vozes.  

  1. Do Rito, Passo a Passo:
  2. Preparação Intercessória

Trinta minutos antes do Início da reunião, a equipe organizadora ora espontaneamente para que os anjos do Senhor lutem a favor de todos os membros do grupo e para que, durante a reunião de oração, acampem ao nosso redor e ministrem conosco o louvor e a adoração, junto à comunhão dos Santos e da Bem-Aventurada Virgem Maria. 

  1. Acolhida;

Num ambiente ao lado do lugar da reunião – ou fundo do ambiente da reunião – devem existir mesas com um singelo “coffee Break”. Membros da equipe recepcionam as pessoas na porta e as convida a se servirem. Canções alegres, num volume ameno, devem estar soando nas caixas de som.

O líder do ministério de louvor convida todos a darem-se a paz uns aos outros novamente e se encaminharem aos seus lugares para o início da reunião. 

  1. Rito Inicial

Em seguida, introduz-se um cântico de durante o qual, entra, em procissão, o cruciferário, os leitores e o pregador da noite.

O líder do ministério de louvor inicia:

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo – Amém.  

  1. Ato de Presença:

Usando-se de um texto bíblico, introduz-se uma oração que ajude a assembleia a tomar consciência de que estamos unidos à Igreja que milita em toda a Terra, à Igreja que triunfa nos céus e que desejamos, em nossa reunião, a santificação das almas do purgatório. 

Deve-se gerar:

  • Contrição pelos nossos pecados;
  • Senso de Comunhão com o Papa, os Bispos, os Sacerdotes, os Religiosos e toda a Igreja que ora.
  • Senso de Comunhão com os anjos, os Santos e a Bem-Aventurada Virgem Maria;
  • Consciência profunda de que estamos diante do Trono de Deus. 
  1. Louvor

Cantos congregacionais e bíblicos são entoados e intercalados por orações espontâneas de louvor,exclamações de louvor, “jubilações” e manifestações afins.

  1. Ensino 

Um cântico de invocação do Espírito Santo é entoado. Terminado o canto, o primeiro leitor faz uma vênia às Sagradas Escrituras e lê o texto bíblico que dará a base para o ensino. Terminada a leitura, o pregador se aproxima; ambos fazem a vênia, em seguida, o leitor se retira, permanecendo, no ambão, o pregador para o ensino. 

Concluído o ensino, uma oração espontânea deve surgir como resposta à palavra pregada. 

  1. Intercessão 

O dirigente do louvor, ou algum membro da equipe de serviço, conduz um momento de oração uns pelos outros, pedindo a Deus por consolação, exortação, direcionamento, cura, libertação e bênçãos espirituais. 

  1. Leitura dos Santos

De acordo com o calendário litúrgico, é feita a leitura do santo ao qual a Igreja faz memória. 

  1. Conclusão:

A reunião é concluída com a oração do Sub Tuum Praesidium. As pessoas se saúdam e podem, novamente, tomar um coffee break antes de partirem.